Cuidado. Este é o grande perigo de comprar óculos pré-feitos nas lojas de roupa — NiT

Estão pendurados junto às caixas de pagamento das lojas de roupa, em supermercados, farmácias e até em estações de serviço. Os óculos pré-feitos são, para muitos, a solução rápida e barata quando começam a ter dificuldade em ler letras mais pequenas no jornal ou mensagens no telemóvel. Resolvem o problema de forma prática, sem recorrer a um oftalmologista ou uma ótica especializada. Mas há riscos.
Apesar da conveniência e do preço reduzido, os especialistas alertam que este tipo de óculos têm limitações e podem até atrasar o diagnóstico de doenças oculares potencialmente graves. "Não os quero diabolizar. É verdade que são acessíveis e, em algumas pessoas específicas, podem ser uma solução", começa por explicar o oftalmologista Ricardo Portugal.
Ainda assim, deixa um aviso: "Não substituem uma avaliação médica." Segundo o especialista, muitas pessoas recorrem a estes modelos quando começam a sentir dificuldade em focar objetos ao perto, um fenómeno natural associado à idade, conhecido como presbiopia, que normalmente surge depois dos 40 anos. O problema é que esta mudança na visão pode ser o motivo que leva alguém a marcar uma consulta e, consequentemente, a descobrir doenças que ainda não provocam sintomas.
Isto porque "a maior parte das doenças graves dos olhos são assintomáticas durante muito tempo". "Quando as pessoas começam a ver mal e vêm a uma consulta, percebemos se têm ou não um problema silencioso."
Embora os modelos pré-feitos possam servir como solução temporária para leitura ocasional, não são personalizados e não têm em conta as características específicas de cada pessoa. "Têm a mesma potência nos dois olhos e funcionam, à partida, para quem tem uma graduação semelhante em ambos."
No entanto, não é isso que acontece na maior parte dos casos. Isto porque a maioria das pessoas apresenta diferenças, ainda que pequenas, nos dois olhos. Além disso, muitos têm astigmatismo ou outros erros refrativos que estes modelos não conseguem corrigir.
Outra limitação importante está relacionada com a distância interpupilar — ou seja, a distância entre as pupilas dos dois olhos. Nos óculos personalizados, este valor é medido individualmente para garantir que o utilizador olha exatamente pelo centro óptico das lentes.
Nos modelos pré-feitos, a distância é fixa e igual para todos. Como resultado, algumas pessoas podem sentir desconforto visual, fadiga ocular, dificuldade em focar durante períodos prolongados e até dores de cabeça após a utilização. Apesar destes inconvenientes, o especialista faz questão de esclarecer um dos mitos mais comuns associados a estes produtos. "Em si, não estragam nada dentro dos olhos", garante.
O verdadeiro problema é, sim, a falsa sensação de segurança. Entre os problemas que podem passar despercebidos estão o glaucoma, doenças da retina ou cataratas em fases iniciais. Algumas destas patologias desenvolvem-se lentamente e durante anos sem provocar sintomas evidentes.
As consequências podem ser muito diferentes consoante a doença em causa. No caso das cataratas, por exemplo, existe uma solução eficaz através da cirurgia, permitindo recuperar a visão perdida na maioria dos casos. "Já no caso do glaucoma, muitas vezes a visão que se perdeu está perdida para sempre", revela.
Se mesmo assim quer optar por este tipo de produto, há um cuidado muito importante a ter no momento da compra: escolher sempre a graduação mais baixa que permita ver confortavelmente — graduações mais elevadas do que o necessário podem aumentar a sensação de dependência visual e tornar mais desconfortável a utilização sem óculos.
